12/08/2019

A reforma da Previdência, que foi aprovada na Câmara na última semana e deve ter o aval do Senado nos próximos meses, despertará nos brasileiros a necessidade de poupar para o futuro por conta própria.

Estimativas da consultoria especializada Mercer indicam que a mudança nas regras de aposentadoria levará, em cinco anos, a um aumento de 25% no número de pessoas que investem em previdência complementar, saltando de 16 milhões para 20 milhões, contabilizando planos abertos e fechados, como os de fundos de pensão de estatais e do setor público.

O volume de recursos investidos nos planos abertos deve saltar 17% entre 2019 e 2020, batendo R$ 1 trilhão, segundo projeção do Santander.

A reforma fixou a idade mínima de 65 anos (homem) e 62 (mulher) para se aposentar e exigirá tempo maior de contribuição para que não haja redução no valor da aposentadoria, além de criar novas regras para o cálculo do benefício pelo INSS.

Outros fatores favorecem o crescimento do mercado de previdência privada: a queda dos juros básicos da economia e a crescente competição entre gestores, fintechs, bancos e seguradoras. Com a mudança de cenário, as instituições reduzem taxas, oferecem fundos mais agressivos e investem em tecnologia para capturar um novo público.

Concorrência acirrada
A tendência é que o movimento diminua a distância do Brasil em relação ao mercado internacional. A previdência complementar representa 25% do PIB brasileiro, considerando planos abertos e fundos de pensão.

Nos EUA, são 76%, e no Chile, 70%, de acordo com números da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) compilados pela Mercer. Em países como Reino Unido, Holanda e Suíça, o percentual ultrapassa 100%.

— Há muito espaço para crescer, e a reforma vai ser um vetor importante porque traz o assunto para a vida das pessoas — explica Felipe Bruno, líder de Previdência da Mercer.

A consultoria espera que a reforma acelere o crescimento anual do número de pessoas com previdência complementar (aberta e fechada) de 1,7% para 5% ao ano, chegando a 20 milhões em cinco anos.

— O brasileiro, que nunca teve cultura de previdência, vai ficar mais atento à necessidade de poupança de longo prazo quando constatar que a remuneração do INSS será menor que a atual — resume Gilvan Cândido, do MBA em previdência complementar da FGV.

Já há sinais de aceleração. No Santander, o volume médio mensal captado para planos de previdência dobrou desde o ano passado, para R$ 900 milhões. Na BrasilPrev, do Banco do Brasil, o número de simulações de planos em seu aplicativo triplicou de janeiro a julho, em reação à tramitação da reforma, conta o presidente Walter Malieni.

No ano passado, o BrasilPrev lançou produto com valor de entrada de R$ 100, para atrair investidores de renda mais baixa, e busca no aplicativo clientes mais jovens, de até 36 anos.

— Temos produtos com tíquete de entrada de R$ 30. Em 20 anos, não vai gerar uma fortuna, mas é um convite para a pessoa iniciar a poupança de longo prazo — diz Victor Bernardes, do Santander.

Os grandes bancos, que concentram 87% do patrimônio investido em previdência privada no Brasil, são o alvo principal de novos concorrentes. Gestoras independentes têm lançado fundos que prometem resultados mais agressivos a taxas menores, enquanto o fenômeno de plataformas digitais com dezenas de fundos permite comparação direta entre os planos.

Desde 2007, o número de fundos saltou de 392 para 1.786, segundo a Economática, enquanto o total de gestoras passou de 45 para 124.

A gestora digital Vitreo é uma das novas entrantes. Seu primeiro fundo estreou em outubro e fechou para captação em oito meses, atingindo patrimônio de R$ 1,1 bilhão. A fintech acaba de lançar um segundo produto e investiu em tecnologia para turbinar a portabilidade — a legislação permite mudar de fundo a qualquer momento, sem pagar taxa ou imposto.

Um aplicativo permite que o investidor fotografe o contrato com a seguradora de origem, e um software de reconhecimento de caracteres preenche o formulário de portabilidade, diz o diretor executivo Patrick O’Grady.

— Há muito dinheiro nas mãos dos bancos rendendo pouco — diz Tito Gusmão, da fintech Warren, que passou a oferecer fundos de previdência em sua plataforma há dois meses, e lançará um fundo próprio no mês que vem.

Hoje, 91% do patrimônio do segmento estão aplicados em fundos de renda fixa. Com a queda dos juros — que podem ficar abaixo de 5% em 2020, segundo projeções —, a tendência é que a renda fixa tenha rendimento cada vez menor.

As gestoras apostam que haverá demanda crescente por fundos de maior risco e potencial de ganho, como os de multimercado. A Verde Asset, butique de fundos mais arrojados, viu o patrimônio do seu produto de previdência multimercado aumentar em R$ 3,8 bilhões em 12 meses.

— Esperamos ser mais bem-sucedidos em fazer os clientes correrem mais risco. Uma fatia tão grande do mercado na renda fixa é um desperdício — afirma Marcelo Flora, do BTG Pactual Vida e Previdência, que está ampliando de 15 para 24 seu rol de fundos.

Leonardo Lourenço, da Mongeral Aegon, observa que a competição levará a uma homogeneização desse mercado, em que o diferencial será justamente a rentabilidade maior. A seguradora investiu na criação de uma gestora própria para definir a estratégia de investimento de seus fundos.

— A reforma foi um dos motivos que nos levaram a criar a seguradora, há três meses, já que o mercado tem imenso potencial de crescimento e está mal servido — diz Roberto Teixeira, da XP Seguros.

As informações são de Rennan Setti e João Sorima Neto n’O Globo.

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